Severino
Dias de Oliveira, mais conhecido como Sivuca, (Itabaiana, 26 de maio de 1930 — João Pessoa, 14 de dezembro de2006) foi um dos maiores artistas do Nordeste do Brasil do século XX, responsável por revelar a amplitude e a
diversidade da sanfona nordestina no cenário mundial da música. Exímio executante da sanfona,
multi-instrumentista, maestro, arranjador,compositor, orquestrador e cantor.
Fonte: Cultura Nordestina
No dia
26 de maio de 1930, Severino Dias de Oliveira (Sivuca) chegou ao mundo em Itabaiana,
semi-árido da Paraíba. De família de
sapateiros e agricultores, começou a tocar sanfona em feiras, batizados e
festas aos nove anos de idade.
Até aos quinze, quando se mudou para Recife, seguiu tocando e
fazendo música pelo interior do Nordeste. Em 1945, aventurou-se no programa de
calouros "Divertimentos Guararapes", na Rádio Guararapes, com a
canção "Tico-tico no fubá" (Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros), e
"In the mood" (Joe Garland e Andy Razaf).
Nessa ocasião, as atenções
do maestro Nelson Ferreira recaíram sobre o novato, que foi convidado para se
apresentar no dia seguinte em programa escrito e apresentado pelo locutor
esportivo, cronista e compositor Antônio Maria. Começou como profissional na Rádio
Clube de Pernambuco, onde recebeu o nome artístico de Sivuca.
Poucos anos depois, tornou-se aluno do maestro Guerra Peixe,
com quem estudou composição e arranjo. Excursionando por Recife, a cantora
Carmélia Alves se encantou com o músico, que já integrava o elenco da Rádo
Jornal do Comércio, e o convidou para gravar em São Paulo. Em 1950, Sivuca
selou a parceria com Humberto Teixeira e lançou seu primeiro disco pela
gravadora Continental, que revelou “Adeus maria fulô”, além de interpretações
de "Tico-tico no fubá" e do choro "Carioquinha no
flamengo", de Waldir Azevedo e Bonfiglio de Oliveira. Em 1951, acompanhou
a cantora Carmélia Alves ao acordeão em "No mundo do baião", e
participou de seu segundo disco, interpretando "Frevo dos vassourinhas
número 1" (Matias da Rocha) e o baião "Sivuca no baião"
(Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga).
Ainda no começo da década, realizou temporadas anuais em São
Paulo, em programas especiais na Rádio Record, com regional ou orquestra sob a
regência dos maestros Hervê Cordovil e Gabriel Migliori. Mudou-se para o Rio de
Janeiro em 1955, ano em que foi contratado pelos Diários Associados para fazer
apresentações na Rádio e na TV Tupi cariocas. Em 1956 gravou pela Copacabana,
de sua autoria, o choro "Homenagem à velha guarda" – seu segundo
sucesso, e a polca "Pulando num pé só", de Edvaldo Pessoa.
Com o passaporte carimbado, embarcou com o grupo Os
Brasileiros, sob a liderança de Guio de Morais, para uma turnê de três meses na
Europa. Ao lado do Trio Iraquitã, de Dimas, de Pernambuco e de Abel Ferreira, o
combo divulgaria a MPB no exterior graças à Lei Humberto Teixeira. Fruto dessa
temporada foi sua residência em Lisboa. Mas no fim da década de 1950, veio o
bilhete azul da Tupi. Isso porque aderiu a uma greve de reivindicação salarial.
Juntou-se, então, ao grupo Brasília Ritmos, formado por Waldir Azevedo, Trio
Fluminense, Vilma Valéria, Norato, Eliseu, Swing, Edison, Jorge e Tião Marinho,
no qual ficou por três meses.
Gravou seu primeiro LP europeu pela gravadora Valentin de
Carvalho, em que produziu e arranjou o primeiro disco de música angolana da
Europa, Duo ouro negro. Em 1960, foi convidado para trabalhar em Paris.
Apresentou-se na Maison Barclay, na capital francesa, e lá permaneceu por
quatro anos, apresentando-se em restaurantes e clubes. Em 1962, gravou pela
Barclay o LP Rendez-vous a Rio, e venceu o prêmio de melhor
músico do ano, concedido pela imprensa francesa.
Em 64, atravessou o Atlântico e fincou os pés em Nova York.
Acompanhou a cantora Carmen Costa em apresentações pelos Estados Unidos e,
entre 65 e 69, assumiu a direção musical da cantora sul-africana Miriam Makeba.
Com ela gravou 3 discos em Nova York e conquistou o sucesso internacional como
arranjador instrumentista com “Pata-pata”. Realizou turnês pela Ásia, África,
Europa, América do Sul e do Norte. Inaugurou, nessa época, o segundo canal de
televisão da Suécia, onde gravou dois LPs.
Chegou a lançar um LP japonês como
violonista. Pela primeira vez, visitou a Escandinávia e assim descreveu em seu
site oficial suas impressões sobre a gente dali: “lembro bem da minha primeira
chegada à terra dos vikings. Achei um povo muito parecido comigo, na cor alva
da pele e no gosto pelo acordeão. Fui logo tratado por eles como irmão. Foi em Copenhagen, em 67, no Varieteen
Teather, no Tivoli, numa turnê ao lado da grande dama da música africana, minha
dileta amiga Miriam Makeba”. Em 68, ainda morando em Nova York, voltou duas
vezes para temporadas de shows que resultaram em programas de televisão pra
Finlândia e Noruega, além da gravação de três discos (um solo e dois com Putte
Wickman).
Em 69, desligou-se da banda de Makeba e, a convite de Oscar
Brown Jr., assumiu a direção do musical Joy. Compôs “Mãe áfrica”
para esse espetáculo e com ele se apresentou em San Francisco, Chicago e Nova
York, onde o show foi gravado ao vivo pela RCA. Quatro anos depois, projetou-se
mais uma vez, com seu show de música brasileira, no Village Gate, onde
permaneceu em cartaz por 2 meses e gravou o LPLife from the Gate, pela Vanguard.
Em 1975 realizou projetos com artistas renomados como Hermeto
Pascoal, Airto Moreira, Betty Midler, Paul Simon. Filmou um programa especial
para a televisão francesa com o mímico Marcel Marceau e com o ator e cantor
Harry Belafonte. Casou-se com a compositora Gloria Gadelha, com quem iniciou
uma parceria musical frutífera, como em “Feira de mangaio”, considerado um
clássico do forró e eternizado por Clara Nunes.
Em 1978 lançou o LP Sivuca, no qual interpretou o sambaião "O dia em que El Rey
voltou à terra de Santa Cruz", parceria com Paulinho Tapajós; as upakangas
– ritmo originário da África do Sul - "Mãe áfrica" (em parceria com
Paulo Cesar Pinheiro) e “Barra vai quebrando”; e o arrasta-pé "Samburá de
peixe miúdo", estas duas últimas em parceria com a mulher Glorinha
Gadelha. No mesmo ano, obteve grande sucesso com a composição "João e
maria", em parceria com Chico Buarque.
A canção saiu no disco "Meus amigos são um barato", nas vozes de Nara Leão e Chico, com arranjo de Sivuca. Em
1980 lançou o disco Cabelo de milho, no qual interpretou, entre outras, a faixa-título, em
parceria com Paulinho Tapajós; "Cantador latino", com Paulo Cesar
Pinheiro; "No tempo dos quintais", que contou com a participação
especial do cantor Fagner; além de "Se te pego na mentira", em
parceria com Glorinha Gadelha.
Em 1984, o arranjador e produtor Rune Ofwerman apresentou
Sivuca a Griec e Hans Cristian Andersen. Idealizou e produziu, pela gravadora
Sonet, o projeto Rendez-vous in Rio, composto pelo disco Som brasil, por um segundo da cantora sueca Sylvia Vrethammar e por Chico’s bar, do brasileiro com o gaitista belga Toots Thielemans. Este projeto
culminou com a gravação de um clipe, ao vivo, no Chico’s Bar, Rio de Janeiro,
pela TV sueca.
Nos anos seguintes foi convidado, pelo produtor Rune e Sylvia,
para uma série de temporadas pela Escandinávia. No mesmo ano, juntou-se a
Chiquinho do Acordeon no disco Sivuca e Chiquinho, que contou com a
participação especial do maestro Radamés Gnattali. Gravou as composições
"Pé de moleque", de Radamés; "O eterno jovem Bach", de
Altamiro Carrilho; "Valsa verde", de Capiba; "Aquariana".
do próprio Sivuca e "Rabo de fita", parceria de Sivuca e Chiquinho do
Acordeon. Em 1985 colocou três discos nas prateleiras suecas: Som brasil, Rendez-vous in Rio e Chico''''s bar - Sivuca e Toots Thielemans, os três pela gravadora Sonet.
No final da década de 80, lançou com o gaitista Rildo Hora o
LP Sanfona e realejo, que obteve boa receptividade por parte da crítica
especializada. Após a morte da cantora Nara Leão, em 89, Sivuca e Paulinho
Tapajós compuseram, em sua homenagem, "Canção que se imaginara",
registrada primeiro no CD Enfim solo, lançado em 1997 e no qual interpreta composições de
Pixinguinha, Luperce Miranda e Johann Sebastian Bach.
Em 1990, lançou o LP Um pé no asfalto, um pé na buraqueira, com a participação especial
de Rildo Hora e de Glorinha Gadelha interpretando, entre outras, "Bom e
bonito", de Osvaldinho do Acordeon; "Forró da gente", de Cecéu;
"Guararema", em parceria com Glorinha Gadelha, e "Quem disse que
o forró acabou?".
Em abril de 94, foi ao ar na TV Cultura, o programa Ensaio com Sivuca e o convidado Dominguinhos. No dia 30
de dezembro, participou do show em homenagem à posse do ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso. Ao seu lado se apresentam Hermeto Pascoal, Osvaldinho,
Borghetinho e Waldonys.
Continuou realizando apresentações no Brasil e no exterior,
participando de festivais e recebendo a reverência internacional por seu
trabalho instrumental. Em 2000 apresentou-se no Teatro Municipal do Rio de
Janeiro junto com a Orquestra Petrobras Pró Música e o arranjador Wagner Tiso.
No carnaval de 99, a Unidos de Vila Isabel homenageou a
cidade de João Pessoa, capital da Paraíba. Entre os destaques da agremiação
estavam Elba Ramalho, Sivuca e Herbert Viana.
Em janeiro de 2001, em São Luís, na série de shows em
homenagem ao compositor Antônio Vieira, principal fonte de inspiração de novos
músicos maranhenses, subiu ao palco junto com Zeca Baleiro, Rita Ribeiro e Elza
Soares. No ano seguinte, participou de shows em comemoração aos 25 anos de
fundação da gravadora Kuarup, com apresentações no Canecão, no Rio de Janeiro,
e no Teatro da UFF, em Niterói.
Em 2004, Sivuca gravou três discos: Cada um belisca um pouco (Biscoito Fino),
com Dominguinhos e Oswaldinho; Sivuca & quinteto uirapuru (Kuarup) e Sivuca sinfônico, que permaneceu inédito até
2006, em que empunhou a sanfona e se uniu à Orquestra Sinfônica de Recife pra
registrar composições populares com arranjos eruditos. Estão no repertório,
“Rapsódia gonzaguiana” (uma seleção de clássicos de Luiz Gonzaga), “Concerto
sinfônico para asa branca” (adaptação para sanfona e orquestra do hino de
Gonzagão e Humberto Teixeira), “Feira de mangaio”, “Aquariana” (peça feita por
ele para Glorinha, única inédita em disco), “Moto-perpétuo” (transcrição para
sanfona da peça de Paganini), “Quando me lembro” (de Luperce Miranda), e “João
e Maria”.
A saúde de Sivuca foi piorando e o câncer nas glândulas
salivares que vinha tratando há quase 30 anos atingiu seu pulmão em novembro de
2005. Incansável, não parou, e assinou todos os arranjos para o disco "Terra esperança Sivuca sinfônico" foi lançado pela
gravadora carioca Biscoito Fino. Mais um de seus grandes sonhos, unir música
popular e erudita pela sua sanfona, estava realizado. Porém, a saúde do músico
voltou a piorar e em 14 de dezembro de 2006 Sivuca morreu em decorrência de uma
insuficiência respiratória causada por edema pulmonar. Compareceram em seu
enterro em João Pessoa mais de 2 mil pessoas.
Postado em "Cultura Nordestina" por Daniel Almeida.