Mostrando postagens com marcador Luiz Gonzaga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luiz Gonzaga. Mostrar todas as postagens

18 de dezembro de 2012

Gilberto Gil: "Eu Não existiria sem Gonzagão"

Entrevista de Gilberto Gil para revista Bravo/dezembro/2012

Gilberto Gil: Sonho muito, sabe? (ele se acomoda num terraço do Fasano, luxuoso hotel da Zona Sul carioca. São 17h15 de uma terça-feira, 9 de outubro. À noite, o cantor e o filho Bem irão fazer um pocket-show no bar do hotel)

Bravo!: Sonha com o que?
Com a minha terra, Itaguaçu. Com os lugares marcantes de lá: o átrio da igreja, o mercado, o correio, a rua de cima e a de baixo, as duas únicas da cidade...
No recenseamento de 1950, Itaguaçu somava uns 800 habitantes, acredita? Oitocentos! Na realidade, nasci em Salvador, mas poucas semanas depois segui para o interior da Bahia, onde meus pais moravam. Claudina e José Gil... Meus pais.... ela, mestiça de negro com índio, trabalhava como professora primária. Ainda está viva, em Salvador, e brevemente completará 99 anos. Ele, mulato, morreu com 78.

Foi um dos raros médicos de Itaguaçu - clínico geral e, depois, sanitarista. O outro médico se chamava Edson Gouveia. Também só havia dois farmacêuticos no município. Um deles, José Celestino, me batizou. Lembro-me bem de todos, né? Do doutor Edson, de meu padrinho, do seu Magalhães, do seu Osvaldo Conceição, do Juvenal Wanderley, dos fogueteiros, do pároco, do juiz de direito.

 Itaguaçu se localiza entre a caatinga brava, inóspita, dura e a Chapada Diamantina. Por isso se beneficia do clima serrano, mais ameno, mais fresco. E recebe influências tanto da cultura sertaneja quanto da cultura menos rígida que caracteriza a serra.

Diz o Google que a cidade fica longe de Salvador. são quase 500 km de distância.

Não sei exatamente a quilometragem. Mas recordo que levávamos dois dias para chegar à capital. Pegávamos um trem e um navio. Entrávamos de vapor na baía de Todos os Santos. Foi em Itaguaçu que travei contato com a sonoridade e o universo disseminados pelas músicas de Luiz Gonzaga. Conheci os repentistas, os sanfoneiros, os violeiros, os cegos que cantavam enquanto esmolavam. Nas ruazinhas dali, escutei inúmeros dos gêneros que hoje agrupamos sob a designação de forró. Os músicos se encontravam, sobretudo, durante os finais de semana. Tocavam na feira, onde os negociantes vendiam laticínios, rapadura, carnes, feijão, arroz, farinha, verduras e derivados de cana. Uma feira animadíssima, que atraía muita gente da região. Devia ter uns 4 ou 5 anos quando descobri Gonzaga pelo rádio. Na mesma época, costuma ouvir Carlos Galhardo, Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Bob Nelson e as irmãs Batista.

O surgimento de Gonzaga, porém, me tirou do sério. "Ele canta como o pessoal de Itaguaçu!", notei maravilhado. "Ele é o nosso cantor!" Virei fã na hora, me identifiquei de imediato com aquela voz, aquele palavreado, aqueles ritmos. Gonzaga acabou se transformando em meu primeiro ídolo. Eu me esforçava para acompanhar a carreira dele.

O Segundo foi João Gilberto?

Não, foi Dorival Caymmi. Depois, Cauby Peixoto, Angela Maria e, aí sim, João.

Com que idade você saiu de Itaguaçu?

Com 9. Fui cursar o ginásio em Salvador. Morava na casa de tia Margarida, professora como minha mãe.

Nunca mais voltou?

Voltei somente uma vez, para filmar cenas de Tempo Rei (documentário sobre o compositor, lançado em 1996). Já não existe ninguém de minha família em Itaguaçu.
Logo após eu me estabelecer na capital, meus pais deixaram nossa cidadezinha por razões profissionais. Passaram uma temporada em Medeiros Neto, outra em Ibirataia e finalmente se instalaram em Vitória da Conquista. Tudo na Bahia né? Enquanto estive em Itaguaçu, nunca pude ver o Gonzaga pessoalmente. Só o admirava por foto. Mas um dia, já em Salvador, consegui avista-lo de perto. Eu rondava os 10 anos. E o Gonzaga se apresentou na praça Castro Alves. Não... Foi na praça da Sé. Ele fazia uma turnê, patrocinada pelo colírio Moura Brasil, que cruzava o país inteiro. Observá-lo em cena me deixou enlouquecido. Aquilo parecia uma epifania. Fiquei com a impressão de que Gonzaga descera dos céus para pousar bem ali, diante de nós. Um negócio extraordinário!

Você já tocava?

Estava aprendendo acordeão, justamente por causa do Lua. Com 2 anos e meio, disse para minha mãe: "Quando crescer, vou ser 'musgueiro'". Inventei um neologismo, né? "Musgueiro", uma corruptela de músico. Na ocasião, além de me interessar por programas das rádios Tupi e Nacional, ouvia minha mãe e minha avó Lídia cantarolarem em casa. Minha mãe, aliás, cantarola até hoje. Em Vitória da Conquista, integrava o coro da igreja. Talvez por viver tão rodeado de canções é que decidi me tornar "musgueiro". Mas em Itaguaçu não aprendi nenhum instrumento, embora venerasse as cornetas e os tambores de brinquedo. Um pouquinho antes de me mudar para a capital, minha mãe se lembrou de meu antigo desejo e perguntou: "você ainda quer virar 'musgueiro'? Respondi que sim. Ela, então, me matriculou numa escola de música em Salvador. "Você não gosta do Gonzaga? Não é louco por baião? Pois vá estudar sanfona!" Eu obedeci né? (risos) E me formei acordeonista. Pratiquei o instrumento entre os 10 e os 16,17 anos - um acordeão da marca Veronese, com 80 baixos. Minha mãe resolveu comprá-lo do professor espanhol que me dava aulas.

Gil com o acordeão que ganhou da mãe quando menino. Foi o primeiro instrumento que aprendeu a tocar

Você o guardou?
Sim, mas raramente toco. Perdi o jeito. No final da adolescência, ganhei um violão Di Giorgio, também de minha mãe, e abandonei gradativamente o acordeão. Só o peguei de novo com seriedade em 2000, quando lancei o disco Gil & Milton.

No álbum, há duas sanfonas, uma das canções que escrevemos juntos. Nós a apresentamos em shows tocando o instrumento. À semelhança do Wagner Tiso, do João Donato e de outros músicos da minha geração, o Milton Nascimento começou como acordeonista. Por isso, compusemos Duas Sanfonas. Peraí... Agora está me ocorrendo que toquei um pouco de acordeão em outro disco de 2000, As Canções de eu tu eles. 

"Observar Gonzaga em cena me deixou enlouquecido. Aquilo parecia UMA EPIFANIA"


Gil e Caetano Veloso em 1968, no auge do tropicalismo
foto: Adhemar Veneziano


"GONZAGÃO ERA COMO UMA PLANTA. ERA AGRESTE, NÉ? INCULTO E BELO...UMA FORÇA BRUTA"

Nos dois trabalhos, você usou o mesmo instrumento que ganhou de sua mãe?

O mesmíssimo! Com aquele acordeão, montei meu primeiro conjunto musical, Os Desafinados. O nome do grupo, claro, surgiu em decorrência da bossa nova. Éramos um baterista, um violonista e dois acordeonistas. A gente tocava para a elite, em aniversários e bailes

Tocavam forró?

Muito de vez em quando. Àquela altura, as classes mais abastadas já não apreciavam  os ritmos nordestinos. Então tocávamos standards norte-americanos e cubanos.

Você compunha no acordeão?

Improvisava uns temas, umas bobagenzinhas, mas compor realmente só depois de aprender violão. Se bem que, no tempo dos Desafinados, criei diversos jingles para um publicitário e radialista da Bahia, o Jorge Santos.

Recorda-se de algum?

Deixe-me pensar... Sim! Do jingle que anunciava os produtos da Milisam, loja de um sujeito chamado Milton Sampaio: "Milisam tem crediário popular/Milisam tem roupa feita pra você comprar/Sem sentir/Compre de tudo pra vestir/No crediário popular/No plano espetacular da sua Milisam". (risos)

Quando você e Luiz Gonzaga se conheceram?

Na época do tropicalismo. Alguém me levou até o apartamento dele. Esqueci quem exatamente. Foi à tarde, na Ilha do Governador. Lembro que Gonzaga elogiou um de meus primeiros sucessos, Procissão, que gravei em 1968 (a música, de cunho político, critica os que prometem "tanta coisa pro sertão"). Ele comentou: "Vocês, jovens que frequentam a universidade, podem questionar a igreja e os coronéis. Eu, não. Sou um homem simples. Preciso agradar todo mundo". Justificava, assim, as relações mais amenas que certos artistas do Nordeste estabeleciam com os poderosos. Pouco depois, ficou amigo de meus pais. Sempre que passava por Vitória da Consquista, ia visitá-los, tomar um café, comer um bolo.

Gonzagão não fazia ideia da própria importância?

Não, não fazia. Era como uma planta, Era agreste, né? Inculto e belo... Uma força bruta. Misturava-se naturalmente à terra. Pertencia de maneira orgânica àquele universo árido que retratou. Não dispunha do afastamento crítico que  os novos cantores preconizavam.

Ele compreendeu o tropicalismo?

Não sei... Nunca conversamos sobre o assunto. De qualquer modo, dá para afirmar que Gonzagão revelou-se tropicalista antes do tropicalismo. (risos) Por um lado, se inseria profundamente na cultura brasileira, negro-mestiça, afro-armonial, afro-mediterrânea. E, por outro lado, dialogava com os gêneros estrangeiros que aprendeu quando trabalhava em inferninhos. Era completamente antropofágico, percebe? O nosso Elvis Presley! (risos) Um artista on the road, que abriu caminho, que pavimentou a estrada para uma porção de gente. Não à toa, o som do acordeão aparece em vários dos hits atuais - o forró universitário, o forró sacana, a trilha da novela Avenida Brasil, as canções do Michel Teló...

Michel Teló não existiria sem Gonzaga?

Oxente! Eu não existiria sem Gonzaga! imagine o Michel Teló, que pintou bem depois. (risos)!

>> esse conteúdo foi postado originalmente na revista Bravo! edição Dezembro/2012
Acesse:
Revista BRAVO!
Gilberto GIL
Siga o Clube da MPB no TWITTER e curta a nossa página no FACEBOOK

13 de dezembro de 2012

Hoje o rei do baião, "Luiz Gonzaga" completaria 100 anos


Há 100 anos nascia um dos compositores mais importantes da música popular brasileira, o músico pernambucano "Gonzagão", autor de canções como Asa Branca, Baião de Dois e Qui Nem Jiló. O centenário de Luiz Gonzaga também ganhou filme este ano. "Gonzaga - de Pai pra Filho", que chegou aos cinemas em outubro, mostra a biografia de Luiz Gonzaga e retrata, ao mesmo tempo, como era a relação entre ele e o filho Gonzaguinha. Gonzagão morreu em agosto de 1989, aos 76 anos.
Fonte: Jornal do Brasil/Cultura.

Para Lembrar Luiz Gonzaga. (Fonte: Revista Época)

Pouco tempo antes de Luiz Gonzaga (1912-1989) morrer, a cantora Anastácia, uma de suas discípulas, esteve com ele. Gonzagão, já doente, confidenciou-lhe um medo: o de ser esquecido. “Eu disse a ele que aquilo era besteira, que sempre iriam se lembrar dele”, diz a forrozeira pernambucana, como o mestre. “Para mim, ele deveria ser eleito o artista do século”, afirma Anastácia, que dedicou um capítulo de sua biografia "Eu sou Anastácia - história de uma rainha a Gonzaga."


A amiga de Gonzagão estava certa. Neste ano, quando faria um século de vida, o compositor de “Asa Branca” está sendo festejado com lançamentos de CDs, tributos e um filme com a sua história (leia mais abaixo). Isso confirma a importância de Luiz Gonzaga na música brasileira como um dos grandes divulgadores dos ritmos nordestinos (xote, xaxado, coco, toada, quadrilha), sobretudo nas décadas de 1940 e 1950, o auge de seu reinado.

Um dos maiores projetos do centenário de Gonzagão é uma caixa com três CDs que trazem 50 gravações inéditas das composições assinadas e cantadas pelo Mestre Lua. Produzido por Thiago Marques Luiz, 100 anos de Gonzagão (Lua Music) reúne artistas da antiga e da nova geração da música brasileira. Nomes como Elba Ramalho, Angela Ro Ro, Fafá de Belém, Claudette Soares, Cida Moreira, Zé Ramalho, Wanderléa, Maria Alcina, Chico César, Zeca Baleiro se juntam aos novatos Gaby Amarantos, Filipe Catto, Vanguart, Verônica Ferriani, Thais Gulin e Karina Buhr.

“A ideia foi mostrar que a música do Rei do Baião é universal e cabe em qualquer ritmo e gênero. É exatamente nisso que reside a genialidade e atemporalidade de sua obra”, diz Marques Luiz, que selecionou o repertório para os CDs, gravados em cinco meses.

Anastácia é uma das convidadas. Ela está na primeira faixa do CD 1 ao lado de Dominguinhos (outro discípulo do Rei), Amelinha, Geraldo Azevedo e Ednardo. Juntos, cantam o grande clássico “Asa branca”, e todos têm uma faixa individual na caixa.

A capa do Box 100 anos de Gonzagão é ilustrada por um desenho feito pelo artista gráfico Elifas Andreato. Publicado originalmente em 1976, a figura traz um sorridente Gonzagão em meio a mãos calejadas que lembram a paisagem do sertão nordestino.

                      A capa do CD que reúne 50 gravações inéditas de canções de Luiz Gonzaga

                     
A canção gravada por Amelinha, “Légua tirana”, especialmente, foi um pedido do próprio Gonzagão, também pouco antes de morrer. A cantora o encontrou em um avião a caminho de Recife. Na hora que a aeronave decolava, Gonzagão lhe fez o pedido: cantar a música. “Ele estava usando um terno branco, já de bengala”, diz Amelinha. “Ela também me pediu para que eu a cantasse em uma noite de gala, com um sanfoneiro no palco”, afirma. O pedido foi atendido algumas vezes ao longo dos anos, mas esta é a primeira vez que Amelinha registra a canção em um disco.

Entre os representantes da nova geração está Ylana Queiroga, que dá voz à faixa “Orélia”. “Para mim, é muito natural cantar Gonzagão. No Nordeste, ele é muito ouvido e muito cantado”, diz a cantora, que é de Recife. Outros novos pernambucanos como Paulo Neto (que está lançando seu primeiro CD, Dois perdidos numa noite suja) e Ayrton Montarroyos, de apenas 18 anos, também foram convidados para gravar na caixa tributo. Eles cantam, respectivamente, “Imbalança” e “Riacho do navio”.

Veja também: Discografia de Luiz Gonzaga ganha reedição completa em seu centenário (publicado pela Folha em 24/06/2012)

               
             O cantor, sanfoneiro e compositor pernambucano Luiz Gonzaga,.em registro de 1984
                                                                       Antônio Carlos Mafalda/Folhapress.



                                                        Outras homenagens:

Correios lançam selo em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga 

O Google hoje está homenageando o centenário de Luiz Gonzaga com um doodle:


Sigam o nosso perfil no Twitter: @EuAmoMPB. Já Curtiu a nossa Fan Page? >  Clube da MPB

25 de agosto de 2012

"Gonzaga - De Pai Para Filho" A trajetória do Rei do Baião

                                         
No ano que comemoramos o centenário de Luiz Gonzaga, a obra do artista ganha as telas com o filme "Gonzaga - de pai para filho", dirigido por Breno Silveira (2 filhos de Francisco), o filme tem previsão para estrear no cinema no dia 26 de outubro.


A trama conta a história da relação entre Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha, mostrando todas as diferenças que ambos tiveram ao longo de suas vidas. O trailer exibe cenas marcantes, como por exemplo: Gonzaguinha apanhando da polícia, as humilhações que Luiz Gonzaga sofreu antes de se tornar o rei do baião e o caso de amor impossível na adolescência do sanfoneiro. 
       
            
                Confira o trailer oficial do filme "Gonzaga de Pai para Filho":





Interpretando Luiz Gonzaga na fase adulta temos o estreante Nivaldo Expedito de Carvalho, sanfoneiro popularmente conhecido como Chambinho do Acordeon. Nivaldo teve que participar de laboratórios de atuação por seis meses e emagrecer dez quilos para interpretar o Gonzagão.

Completando o elenco principal temos o ator Julio Andrade, que será Gonzaguinha e Nanda Costa, que será a cantora e dançarina Odaléia Guedes dos Santos, mãe de Gonzaguinha. O filme teve locações em Juazeiro, no estado da Bahia, em Araruama, no estado do Rio de Janeiro, em Exu, cidade natal de Luiz Gonzaga localizada no interior de Pernambuco e também nos arredores da Serra do Araripe e em Recife.



O filme possui uma página no Facebook, basta Curtir! pra você ficar por dentro das novidades.
Fontes consultadas: Blog Diário do Nordeste, Jornal do Commercio