18 de setembro de 2011

Elis Regina, a Voz de Uma Geração



                   
                                    
Os Primeiros Passos


Elis Regina Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre, em 17 de março de 1945, aos 11 anos começou a cantar no programa infantil "Clube do Guri" na Rádio Farroupilha de Porto Alegre, apresentado pelo radialista Ary Rego, que seria decisivo na carreira de Elis, à media que aos poucos dava importância a sua imagem, dando a ela um quadro fixo no programa.



Seu primeiro contrato profissional foi em 1959, quando aos 14 anos passou a trabalhar na Rádio Gaúcha de Porto Alegre, fazendo parte do programa da Mauricio Sirotsky Sobrinho.



Em 1960 gravou seu primeiro compacto simples pela gravadora continental com às músicas: "Da Sorte" e "Sonhando". Em 1961 gravou o seu primeiro LP: Viva a Brotolândia, os títulos e gravações continuaram até 1963, seu último ano em Porto Alegre, onde acumulou o prêmio de melhor cantora do ano e o lançamento do segundo e terceiro LPs pelas gravadoras Continental e CBS.


Ao final de 1963 resolveu abandonar os estudos e em 1964 Elis Regina acompanhada do pai chega ao Rio de Janeiro para tentar carreira nacional. 


Ao assinar um contrato com a TV Rio, passa a participar do programa noites de gala, com as presenças de Jorge Ben, Wilson Simonal e Trio Iraquitã. 


A partir da televisão, conhece o baterista Dom Um Romão que a leva para um show no Beco das Garrafas. O Beco era uma rua sem saída entre edifícios e ficou conhecido por ser o reduto da bossa nova, por lá se apresentavam os melhores músicos da época, e Elis passou a frequentar com frequência, acompanhada pelos principais músicos que estavam começando a carreira na época. Os shows eram dirigidos por Ronaldo Bôscoli e Miéli.                             




O Divisor de águas na Carreira de Elis.


Em 1965, Elis Regina venceu o I Festival Nacional de Música Popular Brasileira "TV Excelsior" com Arrastão (Edu Lobo & Vinicius de Moraes), recebendo o prêmio Berimbau de Ouro e projetando-se nacionalmente. Essa participação foi considerada seu lançamento público como estrela nascente da MPB.

                                  .                                          

A participação no primeiro festival de música brasileira em 1965 na TV Record, abriu definitivamente as portas para Elis Regina. Apresentando Arrastão a gaúcha conquistou o primeiro lugar no festival, nesse mesmo ano começou a frutífera parceria com Jair Rodrigues, lhe renderia os três discos da série Dois na Bossa e o programa de televisão "O Fino da Bossa", este último levando grandes estrelas da então nascente MPB ao palco do teatro Record.



                                                                             



"O Fino da Bossa" -  foi um programa produzido pela TV Record, em 1965, e era apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues, acompanhando na maior parte das edições pelo Zimbo Trio, o programa recebia ao vivo os convidados no palco, foi com esse programa que ela conquistou de vez o público e ganhou o posto de uma das maiores cantoras do Brasil.


Tamanha repercussão fez de Elis uma unanimidade, ela levava multidões aos teatros e para frente da TV. A pimentinha como ficou conhecida, por causa da sua personalidade forte, era a representante de uma geração talentosa. A primeira após a bossa nova, ocupando espaço num veículo de comunicação de alcance nacional. 


Produzido e dirigido por Manoel Carlos, hoje conhecido como autor de novelas e Nilton Travesso, a atração ficou no ar por três anos com grande sucesso, entre 1965 e 1967. O Fino da Bossa marcou a história da televisão no Brasil e ajudou a redefinir os rumos da música popular brasileira. Vejam o link sobre o programa: O Fino da Bossa


O fim dos anos 60 foi marcado pela participação de Elis em diversos festivais, com desempenhos ora aplaudidos, ora vaiados. A carreira internacional da cantora também começou nessa época, com apresentações marcantes na França e em Portugal. 


Em 1969 ela volta ao Brasil e divide-se entre o programa Elis estúdio, ainda na Tv Record e o cuidado com sua primeira gravidez, fruto do casamento com Ronaldo Bôscoli. Dois anos depois, a cantora deixa a Record e assina com a Globo, passa a apresentar junto com Ivan Lins o Programa "Som Livre Exportação"


 O programa som livre Exportação revolucionou os musicais de televisão ao romper com a fórmula dos programa de auditório, intercalando depoimento de personalidades e recolhendo opinião de populares.  Período de exibição: 03/12/1970 a 22/08/1971.

                                         


Nos dias 12 e 13 de maio de 1973, Elis participou ao lado de grandes artistas da MPB da série de shows que compuseram "Phono 73" promovido pela gravadora Philips e lançado em  três LPs. Em 2005 foi lançada a caixa "Phono 73" contendo dois cds e um dvd.


                                                           
Vejam o link da reportagem da Folha de São Paulo sobre o Phono 73.     
Elis Regina revelou alguns dos maiores compositores da música popular brasileira, podemos citar alguns: Renato Teixeira "Romaria", Ivan lins "Madalena", João bosco e Aldir Blanc "Bala com bala", Tunai "As aparências enganam", Fagner e Belchior "Mucuripe", Belchior "Como nossos pais", Tim Maia "These are the songs", Milton Nascimento "Travessia", "Canção do Sal" e tantas outras. Milton comenta no vídeo o jeito pimentinha de ser de Elis, vejam: 


                                                                                             

Em 16 de agosto de 1977, Elis participou do Especial de Milton Nascimento na TV Bandeirantes, vejam no vídeo:


                           

No vídeo abaixo, Nelson Motta fala sobre as parcerias marcantes da MPB e cita o dueto de Elis Regina e Tim Maia em "These are the songs"

                       
                                                              


Comemoração dos 10 anos de carreira.


Em comemoração aos dez anos de carreira na gravadora Philips, Elis ganhou de presente da gravadora um projeto especial, era a gravação do antológico "Elis & Tom-1974", com produção de Aloysio de Oliveira.


Elis foi para Los Angeles gravar o disco com Tom Jobim nos estúdios da MGM, o disco foi gravado entre os dias 22 de fevereiro e 09 de março. Antes de encontrar-se com Tom, Elis declara: "Tom me assusta um pouco, mas é importante conviver com esse monstro sagrado da nossa música, e a responsabilidade de gravar ao seu lado balança um pouco qualquer pessoa". (Folha de São Paulo, 17/04/1974).



Vejam imagens da gravação do disco feita nos estúdios da MGM em Los Angeles:
              
                                     

 No inicio de 1975, criou com Cesar Camargo Mariano, seu irmão Rogério Costa e mais outro sócio a Trama, empresa que passou a produzir espetáculos musicais.                               


Falso Brilhante -  Em 1975 Elis Regina estreou um espetáculo intitulado Falso Brilhante, com o objetivo de contar a sua história, vida e carreira, sem deixar de lado as críticas a ditadura militar; tudo isso num clima meio circense. O show teve mais de 1.200 apresentações e ficou em cartaz entre o final de 1975 e o início de 1977, tornando-se assim um sucesso absoluto e lendário na história da MPB. 


Nesse espetáculo ela interpretou duas canções "Como nossos pais e velha roupa colorida" escrita por Belchior, lançando assim o jovem compositor. Devido a popularidade de Falso Brilhante foi solicitado que Elis e seus músicos gravassem parte do repertório em estúdio pra que fosse lançado um LP.

Elis Regina quebrou preconceitos - Elis Regina além de quebrar um preconceito contra a "música rural" lançou o compositor Renato Teixeira ao gravar a música Romaria no LP Elis de 1977, a música fez um sucesso enorme e tornou Renato Teixeira nacionalmente conhecido. Vejam que interpretação sensível e marcante da pimentinha:


                             

Elis Regina e Adoniran Barbosa, uma dupla que deu samba - Elis e Adoniram se encontraram diversas vezes pela vida. No primeiro encontro no "Fino da Bossa" Elis não segurou as gargalhadas diante da irreverência de Adoniran. No livro Adoniran, uma biografia, (editora Globo) o jornalista José de Campos Jr relatou os encontros de Elis Regina com Adoniram.


A pimentinha gravou duas músicas de Adoniran, "Saudosa Maloca" saiu no LP Transversal do Tempo e "Tiro ao Álvaro" que foi gravada no disco Adoniran convida e além disso gravou ainda pra um especial de TV a música "Iracema" junto com Adoniran em 1978. Adoniran morreu meses depois de Elis. Vamos lembrar o sucesso "Tiro ao Álvaro"


                                                                                                         


Vejam esse encontro memorável e descontraído de Elis com Adoniram cantando Iracema, Um Samba no Bexiga e Saudosa Maloca no Bar da Carmela, bairro Bexiga, em São Paulo-1978.  


                                                                    

 Frases polêmicas - "Sempre vou viver como kamikaze, é isso que me faz ficar de pé".  "Neste país só há duas que cantam: Gal e eu"


  Elis e os filhos - Depois de trocar a vida poluída na cidade grande por uma casa na Serra da Cantareira, Elis e César ganham mais uma criança pra completar a família, dessa vez a menina Maria Rita, que hoje brilha nos palcos seguindo a mesma carreira da mãe. 








Elis e seu engajamento politico - Elis sempre foi uma mulher ativa, que criticava e manisfestava sua indignação contra a repressão na época da ditadura, também lutou em favor da causa dos direitos autorais dos artistas.
 Essa postura de inquietude e inconformismo a acompanhou por toda sua carreira, sendo enfatizada por interpretações consagradas de "O Bêbado e a Equilibrista" de João Bosco e Aldir Blanc. A canção coroou a volta de personalidades brasileiras do exílio, a partir de 1979. Vejam o vídeo dessa música que ficou conhecida como o hino da anistia:  
                     
                                                                                

Os Grandes Espetáculos - Elis sempre tinha algo a dizer, sempre inovava, sempre criava um espetáculo e mandava seu recado, como já falamos anteriormente o Falso Brilhante foi um deles, teve também o Transversal do Tempo em novembro de 1977 que excursionou por diversas capitais brasileiras e também Itália e Espanha.   


Festival de jazz, Montreau/Suíça - Em 1979 Elis deixa a gravadora Philips e passa a WEA. O novo contrato inclui, de antemão a participação da cantora no Festival de Jazz de Montreaux, na Suiça. Além da banda com cinco músicos, fazem parte do show o gaitista Toots Thielmans e o multi-instrumentista Hermeto Pascoal.


  
       
Saudades do Brasil:
                            
                                                                      O espetáculo Saudades do Brasil - começa sua temporada em abril, no Canecão (RJ), mas é interrompido em julho/1980 pela morte de Vinicius de Moraes. O show vira disco, com tiragem limitada de 25 mil unidades. 


Ainda em 80, Elis lança um novo LP, desta vez pela gravadora EMI-Odeon, dedicado a Rita Lee, "Meu ídolo, minha amiga e colega de internato". Seria o último disco gravado pela cantora. A dedicação à concepção e produção do show Trem Azul ocupa Elis durante o ano de 1981. 


O espetáculo inaugura a casa de shows paulista Anhembi e depois iria ao Rio de Janeiro e a Porto Alegre. A cantora muda de gravadora mais uma vez, passando agora à "Som Livre". Elis não chegou a gravar nem um disco na nova empresa, pois morreu em 19 de janeiro de 1982, em São Paulo, vítima de overdose de cocaína. Uma camisa com a bandeira brasileira onde se lê "Elis Regina" no lugar de "Ordem e Progresso" veste o corpo da cantora, velado no Teatro Bandeirantes.  

                                                                                    

"Choram Marias e Clarices, chora a nossa pátria mãe gentil"


Elis era uma estrela que se apagou, mas continua brilhando e iluminando nossas vidas através da sua obra, seus discos ainda estão aí pra gente ouvir e sentir "Saudades do Brasil" saudades de um país que não existe mais, onde a verdadeira música do Brasil tinha o seu espaço merecido. Só nos resta lembrar e reverenciar aquela que sem dúvida foi a maior interprete da nossa música popular brasileira. 


"Elis Regina Carvalho Costa"- (Porto Alegre *17/03/1945. São Paulo +19/01/1982). Como não poderia ser diferente, a morte de Elis causou comoção nacional, Veja o registro do Jornal Hoje,em 1982:


                                 

Estátua de Elis Regina, em homenagem os 237 anos de Porto Alegre:


no dia 26 de março de 2009, foi inaugurada na Usina do Gasômetro em Porto Alegre, no local há uma estátua confeccionada em bronze, a obra reproduz a cantora gaúcha em tamanho natural. A imagem foi feita pelo artista plástico "José Pereira Passos" e doada à administração Municipal. 


                                                                                     


"Azar, a esperança equilibrista, sabe que o show de todo artista, tem que continuar..."  [João Bosco, Aldir Blanc]

                                                


"Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais" [Belchior].



Wallace Surce