18 de dezembro de 2012

Gilberto Gil: "Eu Não existiria sem Gonzagão"

Entrevista de Gilberto Gil para revista Bravo/dezembro/2012

Gilberto Gil: Sonho muito, sabe? (ele se acomoda num terraço do Fasano, luxuoso hotel da Zona Sul carioca. São 17h15 de uma terça-feira, 9 de outubro. À noite, o cantor e o filho Bem irão fazer um pocket-show no bar do hotel)

Bravo!: Sonha com o que?
Com a minha terra, Itaguaçu. Com os lugares marcantes de lá: o átrio da igreja, o mercado, o correio, a rua de cima e a de baixo, as duas únicas da cidade...
No recenseamento de 1950, Itaguaçu somava uns 800 habitantes, acredita? Oitocentos! Na realidade, nasci em Salvador, mas poucas semanas depois segui para o interior da Bahia, onde meus pais moravam. Claudina e José Gil... Meus pais.... ela, mestiça de negro com índio, trabalhava como professora primária. Ainda está viva, em Salvador, e brevemente completará 99 anos. Ele, mulato, morreu com 78.

Foi um dos raros médicos de Itaguaçu - clínico geral e, depois, sanitarista. O outro médico se chamava Edson Gouveia. Também só havia dois farmacêuticos no município. Um deles, José Celestino, me batizou. Lembro-me bem de todos, né? Do doutor Edson, de meu padrinho, do seu Magalhães, do seu Osvaldo Conceição, do Juvenal Wanderley, dos fogueteiros, do pároco, do juiz de direito.

 Itaguaçu se localiza entre a caatinga brava, inóspita, dura e a Chapada Diamantina. Por isso se beneficia do clima serrano, mais ameno, mais fresco. E recebe influências tanto da cultura sertaneja quanto da cultura menos rígida que caracteriza a serra.

Diz o Google que a cidade fica longe de Salvador. são quase 500 km de distância.

Não sei exatamente a quilometragem. Mas recordo que levávamos dois dias para chegar à capital. Pegávamos um trem e um navio. Entrávamos de vapor na baía de Todos os Santos. Foi em Itaguaçu que travei contato com a sonoridade e o universo disseminados pelas músicas de Luiz Gonzaga. Conheci os repentistas, os sanfoneiros, os violeiros, os cegos que cantavam enquanto esmolavam. Nas ruazinhas dali, escutei inúmeros dos gêneros que hoje agrupamos sob a designação de forró. Os músicos se encontravam, sobretudo, durante os finais de semana. Tocavam na feira, onde os negociantes vendiam laticínios, rapadura, carnes, feijão, arroz, farinha, verduras e derivados de cana. Uma feira animadíssima, que atraía muita gente da região. Devia ter uns 4 ou 5 anos quando descobri Gonzaga pelo rádio. Na mesma época, costuma ouvir Carlos Galhardo, Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Bob Nelson e as irmãs Batista.

O surgimento de Gonzaga, porém, me tirou do sério. "Ele canta como o pessoal de Itaguaçu!", notei maravilhado. "Ele é o nosso cantor!" Virei fã na hora, me identifiquei de imediato com aquela voz, aquele palavreado, aqueles ritmos. Gonzaga acabou se transformando em meu primeiro ídolo. Eu me esforçava para acompanhar a carreira dele.

O Segundo foi João Gilberto?

Não, foi Dorival Caymmi. Depois, Cauby Peixoto, Angela Maria e, aí sim, João.

Com que idade você saiu de Itaguaçu?

Com 9. Fui cursar o ginásio em Salvador. Morava na casa de tia Margarida, professora como minha mãe.

Nunca mais voltou?

Voltei somente uma vez, para filmar cenas de Tempo Rei (documentário sobre o compositor, lançado em 1996). Já não existe ninguém de minha família em Itaguaçu.
Logo após eu me estabelecer na capital, meus pais deixaram nossa cidadezinha por razões profissionais. Passaram uma temporada em Medeiros Neto, outra em Ibirataia e finalmente se instalaram em Vitória da Conquista. Tudo na Bahia né? Enquanto estive em Itaguaçu, nunca pude ver o Gonzaga pessoalmente. Só o admirava por foto. Mas um dia, já em Salvador, consegui avista-lo de perto. Eu rondava os 10 anos. E o Gonzaga se apresentou na praça Castro Alves. Não... Foi na praça da Sé. Ele fazia uma turnê, patrocinada pelo colírio Moura Brasil, que cruzava o país inteiro. Observá-lo em cena me deixou enlouquecido. Aquilo parecia uma epifania. Fiquei com a impressão de que Gonzaga descera dos céus para pousar bem ali, diante de nós. Um negócio extraordinário!

Você já tocava?

Estava aprendendo acordeão, justamente por causa do Lua. Com 2 anos e meio, disse para minha mãe: "Quando crescer, vou ser 'musgueiro'". Inventei um neologismo, né? "Musgueiro", uma corruptela de músico. Na ocasião, além de me interessar por programas das rádios Tupi e Nacional, ouvia minha mãe e minha avó Lídia cantarolarem em casa. Minha mãe, aliás, cantarola até hoje. Em Vitória da Conquista, integrava o coro da igreja. Talvez por viver tão rodeado de canções é que decidi me tornar "musgueiro". Mas em Itaguaçu não aprendi nenhum instrumento, embora venerasse as cornetas e os tambores de brinquedo. Um pouquinho antes de me mudar para a capital, minha mãe se lembrou de meu antigo desejo e perguntou: "você ainda quer virar 'musgueiro'? Respondi que sim. Ela, então, me matriculou numa escola de música em Salvador. "Você não gosta do Gonzaga? Não é louco por baião? Pois vá estudar sanfona!" Eu obedeci né? (risos) E me formei acordeonista. Pratiquei o instrumento entre os 10 e os 16,17 anos - um acordeão da marca Veronese, com 80 baixos. Minha mãe resolveu comprá-lo do professor espanhol que me dava aulas.

Gil com o acordeão que ganhou da mãe quando menino. Foi o primeiro instrumento que aprendeu a tocar

Você o guardou?
Sim, mas raramente toco. Perdi o jeito. No final da adolescência, ganhei um violão Di Giorgio, também de minha mãe, e abandonei gradativamente o acordeão. Só o peguei de novo com seriedade em 2000, quando lancei o disco Gil & Milton.

No álbum, há duas sanfonas, uma das canções que escrevemos juntos. Nós a apresentamos em shows tocando o instrumento. À semelhança do Wagner Tiso, do João Donato e de outros músicos da minha geração, o Milton Nascimento começou como acordeonista. Por isso, compusemos Duas Sanfonas. Peraí... Agora está me ocorrendo que toquei um pouco de acordeão em outro disco de 2000, As Canções de eu tu eles. 

"Observar Gonzaga em cena me deixou enlouquecido. Aquilo parecia UMA EPIFANIA"


Gil e Caetano Veloso em 1968, no auge do tropicalismo
foto: Adhemar Veneziano


"GONZAGÃO ERA COMO UMA PLANTA. ERA AGRESTE, NÉ? INCULTO E BELO...UMA FORÇA BRUTA"

Nos dois trabalhos, você usou o mesmo instrumento que ganhou de sua mãe?

O mesmíssimo! Com aquele acordeão, montei meu primeiro conjunto musical, Os Desafinados. O nome do grupo, claro, surgiu em decorrência da bossa nova. Éramos um baterista, um violonista e dois acordeonistas. A gente tocava para a elite, em aniversários e bailes

Tocavam forró?

Muito de vez em quando. Àquela altura, as classes mais abastadas já não apreciavam  os ritmos nordestinos. Então tocávamos standards norte-americanos e cubanos.

Você compunha no acordeão?

Improvisava uns temas, umas bobagenzinhas, mas compor realmente só depois de aprender violão. Se bem que, no tempo dos Desafinados, criei diversos jingles para um publicitário e radialista da Bahia, o Jorge Santos.

Recorda-se de algum?

Deixe-me pensar... Sim! Do jingle que anunciava os produtos da Milisam, loja de um sujeito chamado Milton Sampaio: "Milisam tem crediário popular/Milisam tem roupa feita pra você comprar/Sem sentir/Compre de tudo pra vestir/No crediário popular/No plano espetacular da sua Milisam". (risos)

Quando você e Luiz Gonzaga se conheceram?

Na época do tropicalismo. Alguém me levou até o apartamento dele. Esqueci quem exatamente. Foi à tarde, na Ilha do Governador. Lembro que Gonzaga elogiou um de meus primeiros sucessos, Procissão, que gravei em 1968 (a música, de cunho político, critica os que prometem "tanta coisa pro sertão"). Ele comentou: "Vocês, jovens que frequentam a universidade, podem questionar a igreja e os coronéis. Eu, não. Sou um homem simples. Preciso agradar todo mundo". Justificava, assim, as relações mais amenas que certos artistas do Nordeste estabeleciam com os poderosos. Pouco depois, ficou amigo de meus pais. Sempre que passava por Vitória da Consquista, ia visitá-los, tomar um café, comer um bolo.

Gonzagão não fazia ideia da própria importância?

Não, não fazia. Era como uma planta, Era agreste, né? Inculto e belo... Uma força bruta. Misturava-se naturalmente à terra. Pertencia de maneira orgânica àquele universo árido que retratou. Não dispunha do afastamento crítico que  os novos cantores preconizavam.

Ele compreendeu o tropicalismo?

Não sei... Nunca conversamos sobre o assunto. De qualquer modo, dá para afirmar que Gonzagão revelou-se tropicalista antes do tropicalismo. (risos) Por um lado, se inseria profundamente na cultura brasileira, negro-mestiça, afro-armonial, afro-mediterrânea. E, por outro lado, dialogava com os gêneros estrangeiros que aprendeu quando trabalhava em inferninhos. Era completamente antropofágico, percebe? O nosso Elvis Presley! (risos) Um artista on the road, que abriu caminho, que pavimentou a estrada para uma porção de gente. Não à toa, o som do acordeão aparece em vários dos hits atuais - o forró universitário, o forró sacana, a trilha da novela Avenida Brasil, as canções do Michel Teló...

Michel Teló não existiria sem Gonzaga?

Oxente! Eu não existiria sem Gonzaga! imagine o Michel Teló, que pintou bem depois. (risos)!

>> esse conteúdo foi postado originalmente na revista Bravo! edição Dezembro/2012
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Revista BRAVO!
Gilberto GIL
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17 de dezembro de 2012

Mulheres de Péricles



Disco que homenageia o compositor já está disponível para download gratuito

Fonte: Revista TPM.
O disco tributo, "Mulheres de Péricles" é um projeto idealizado pelo DJ Zé Pedro, com produção e curadoria de Nina Cavalcanti, que é filha do compositor carioca Péricles Cavalcanti.
O projeto, que traz texto de apresentação assinado por Arnaldo Antunes, celebra a obra de Péricles, especialmente dos anos de 1970 e 1980 e apresenta 17 cantoras da nova geração interpretando 15 músicas do compositor. No time, as vozes de Mallu Magalhães, Céu, Tiê, Laura Lavieri, Nina Becker, Juliana Kehl, Barbara Eugênia, Iará Rennó, Karina Buhr, Ava Rocha, Anelis Assumpção, Marietta Vidal, Mairah Rocha, Juliana Perdigão, Bluebell, Serena e Tulipa Ruiz.

Faça o Download gratuito: Mulheres de Péricles

O site do disco:


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14 de dezembro de 2012

15 anos de Los Hermanos


Hoje a banda, Los Hermanos, completa 15 aninhos. 
Peço licença poética pra cometer a sucessão de artigos definidos, "Os Los Hermanos", com suas influências que vão de hardcore à marchinhas de carnaval, causaram fervorosa já no disco de estréia, lançado em 1999, que levava o nome da banda. De cara encabeçaram o sucesso  "Ana Julia", e venderam 250 mil cópias.



Depois disso foi um sucesso atrás do outro.

Em 2007,  para desespero dos fãs, a banda anunciou um recesso com tempo indeterminado, e mesmo depois de ter encerrado a turnê "4", marcam um show de despedida, que aconteceu em uma das casas de shows mais  tradicionais do Rio de janeiro, a Fundição Progresso. 
Os ingressos, vocês podem imaginar, esgotaram na velocidade da luz. Lembrado até hoje  como um dos melhores e mais comentados shows do país nas últimas décadas, nunca se viu tanta gente emocionada no mesmo lugar. Sem duvida nenhuma a despedida na Fundição Progresso foi um show memorável!
Despedida na Fundição Progresso

Nesse período, os integrantes aproveitaram para realizar  seus projetos individuais que, diga-se de passagem, também fizeram muito sucesso. Rodrigo Amarante, por exemplo, começou a se dedicar a "Orquestra Imperial" e  um tempo depois a banda Little Joy. Marcelo camelo lançou trabalhos solo, fez parcerias e teve varias canções gravadas por artistas de peso, como Ney Matogrosso e Maria RitaNo fim de 2011, para a felicidade dos fãs, a banda anunciou o retorno para turnê em 2012.

O que mais chama atenção e diferencia a "Los Hermanos" das outras bandas é a sua não convencionalidade. Fora a mistura bem casada de ritmos, que cria uma sonoridade única, a banda também possui uma linguagem bem mais "poética e culta" do que se julga, popular e comercial. Mas não pensem que isso causou algum problema, pelo contrario, essas características singulares, caíram no gosto e graça do grande público.
Hoje a banda influência e inspira inúmeros artistas que estão despontando por ai, e me arrisco a dizer que é a banda mais bem sucedida do país, com milhares de fãs. Onde vão arrastam uma verdadeira legião.

Retrospectiva/2012- Los Hermanos. Por Wallace Surce:
Projetos comemorativos aos quinze anos da banda

Para deleite dos fãs, foi realizado uma turnê comemorativa e além disso a discografia do Los Hermanos foi lançada em vinil, e também foi lançado uma caixa com todos os CDs da banda + DVD gravado na Fundição. Veja a matéria que foi publicada originalmente no site do Multishow em 17/04/2012:


Caixa com vinis dos 5 álbuns dos Los Hermanos chega às lojas no fim de abril:
Banda inicia a turnê no dia 20 de abril em Recife
A pouco mais de três dias do primeiro show de sua turnê de reunião, os Los Hermanos divulgaram nessa terça (17) a data de lançamento da caixa que compila os 5 álbuns do grupo em versões em vinil, gravados pela (Polysom). Segundo a distribuidora da caixa, os álbuns devem chegar às lojas na última semana de abril.
Todos os quatro álbuns de estúdio lançados pelo grupo - "Los Hermanos" (1999), "Bloco Do Eu Sozinho" (2001), "Ventura (2003) e "Quatro" (2005) - também vão ser postos à venda em versões individuais, enquanto o ao vivo "Los Hermanos na Fundição Progresso" será exclusivo do boxset. 

Os Los Hermanos dão início a uma turnê de 20 shows pelo Brasil no próximo dia 20, em Recife. Voltando ao um dos palcos mais importantes para carreira da banda, o quarteto fecha uma das noites do Festival Abril Pro Rock.

Los Hermanos divulga datas da nova turnê: 

Banda vai tocar em oito cidades em 2012, numa turnê comemorativa de 15 anos. Confira no link: Datas

Blog Notas Musicais: Alvo de culto fervoroso entre tribos de fãs de várias idades, o grupo carioca Los Hermanos formatou em  seus quatro álbuns de estúdio um som que cresceu, apareceu e se tornou uma das maiores influências da música produzida no Brasil ao longo dos anos 2000. Ora embalados em caixa no formato de miniLPs, à qual foi acrescentado o DVD Los Hermanos na Fundição Progresso 09 de junho de 2007 (Sony Music, 2008),


                   Homenagem do site Musicoteca:


O site musicoteca homenageia os 15 anos do Los Hermanos

Os clássicos de uma geração com interpretações inéditas da nova safra musical brasileira.
Em 2012, a banda “underground”, Los Hermanos, que mais influenciou a nova geração de músicos brasileiros realizará uma turnê comemorativa do 15º aniversário. Para homenagear o quarteto, a musicoteca convidou 33 artistas brasileiros para retratar alguns dos clássicos, cada um com a sua maneira e estilo. O resultado será um disco inédito com distribuição gratuita, online e intitulado Re-Trato – já apresentado e “acordado” com o Los Hermanos.

O álbum disponibilizado pelo "Musicoteca" contou ainda com a colaboração luxuosa da artista plástica Luyse Costa, que fez a arte do projeto. 



Para baixar a coletânea "Re-trato" da Musicoteca, é só clicar aqui: DOWNLOAD

Parabéns Los Hermanos!

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Confira a Biografia de Sivuca



Severino Dias de Oliveira, mais conhecido como Sivuca, (Itabaiana, 26 de maio de 1930  João Pessoa, 14 de dezembro de2006) foi um dos maiores artistas do Nordeste do Brasil do século XX, responsável por revelar a amplitude e a diversidade da sanfona nordestina no cenário mundial da música. Exímio executante da sanfona, multi-instrumentista, maestro, arranjador,compositor, orquestrador e cantor.


Fonte: Cultura Nordestina

No dia 26 de maio de 1930, Severino Dias de Oliveira (Sivuca) chegou ao mundo em Itabaiana, semi-árido da Paraíba. De família de sapateiros e agricultores, começou a tocar sanfona em feiras, batizados e festas aos nove anos de idade.



Até aos quinze, quando se mudou para Recife, seguiu tocando e fazendo música pelo interior do Nordeste. Em 1945, aventurou-se no programa de calouros "Divertimentos Guararapes", na Rádio Guararapes, com a canção "Tico-tico no fubá" (Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros), e "In the mood" (Joe Garland e Andy Razaf). 

Nessa ocasião, as atenções do maestro Nelson Ferreira recaíram sobre o novato, que foi convidado para se apresentar no dia seguinte em programa escrito e apresentado pelo locutor esportivo, cronista e compositor Antônio Maria. Começou como profissional na Rádio Clube de Pernambuco, onde recebeu o nome artístico de Sivuca.

Poucos anos depois, tornou-se aluno do maestro Guerra Peixe, com quem estudou composição e arranjo. Excursionando por Recife, a cantora Carmélia Alves se encantou com o músico, que já integrava o elenco da Rádo Jornal do Comércio, e o convidou para gravar em São Paulo. Em 1950, Sivuca selou a parceria com Humberto Teixeira e lançou seu primeiro disco pela gravadora Continental, que revelou “Adeus maria fulô”, além de interpretações de "Tico-tico no fubá" e do choro "Carioquinha no flamengo", de Waldir Azevedo e Bonfiglio de Oliveira. Em 1951, acompanhou a cantora Carmélia Alves ao acordeão em "No mundo do baião", e participou de seu segundo disco, interpretando "Frevo dos vassourinhas número 1" (Matias da Rocha) e o baião "Sivuca no baião" (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga).

Ainda no começo da década, realizou temporadas anuais em São Paulo, em programas especiais na Rádio Record, com regional ou orquestra sob a regência dos maestros Hervê Cordovil e Gabriel Migliori. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1955, ano em que foi contratado pelos Diários Associados para fazer apresentações na Rádio e na TV Tupi cariocas. Em 1956 gravou pela Copacabana, de sua autoria, o choro "Homenagem à velha guarda" – seu segundo sucesso, e a polca "Pulando num pé só", de Edvaldo Pessoa.

Com o passaporte carimbado, embarcou com o grupo Os Brasileiros, sob a liderança de Guio de Morais, para uma turnê de três meses na Europa. Ao lado do Trio Iraquitã, de Dimas, de Pernambuco e de Abel Ferreira, o combo divulgaria a MPB no exterior graças à Lei Humberto Teixeira. Fruto dessa temporada foi sua residência em Lisboa. Mas no fim da década de 1950, veio o bilhete azul da Tupi. Isso porque aderiu a uma greve de reivindicação salarial. Juntou-se, então, ao grupo Brasília Ritmos, formado por Waldir Azevedo, Trio Fluminense, Vilma Valéria, Norato, Eliseu, Swing, Edison, Jorge e Tião Marinho, no qual ficou por três meses.

Gravou seu primeiro LP europeu pela gravadora Valentin de Carvalho, em que produziu e arranjou o primeiro disco de música angolana da Europa, Duo ouro negro. Em 1960, foi convidado para trabalhar em Paris. Apresentou-se na Maison Barclay, na capital francesa, e lá permaneceu por quatro anos, apresentando-se em restaurantes e clubes. Em 1962, gravou pela Barclay o LP Rendez-vous a Rio, e venceu o prêmio de melhor músico do ano, concedido pela imprensa francesa.

Em 64, atravessou o Atlântico e fincou os pés em Nova York. Acompanhou a cantora Carmen Costa em apresentações pelos Estados Unidos e, entre 65 e 69, assumiu a direção musical da cantora sul-africana Miriam Makeba. Com ela gravou 3 discos em Nova York e conquistou o sucesso internacional como arranjador instrumentista com “Pata-pata”. Realizou turnês pela Ásia, África, Europa, América do Sul e do Norte. Inaugurou, nessa época, o segundo canal de televisão da Suécia, onde gravou dois LPs. 

Chegou a lançar um LP japonês como violonista. Pela primeira vez, visitou a Escandinávia e assim descreveu em seu site oficial suas impressões sobre a gente dali: “lembro bem da minha primeira chegada à terra dos vikings. Achei um povo muito parecido comigo, na cor alva da pele e no gosto pelo acordeão. Fui logo tratado por eles como irmão. Foi em Copenhagen, em 67, no Varieteen Teather, no Tivoli, numa turnê ao lado da grande dama da música africana, minha dileta amiga Miriam Makeba”. Em 68, ainda morando em Nova York, voltou duas vezes para temporadas de shows que resultaram em programas de televisão pra Finlândia e Noruega, além da gravação de três discos (um solo e dois com Putte Wickman).

Em 69, desligou-se da banda de Makeba e, a convite de Oscar Brown Jr., assumiu a direção do musical Joy. Compôs “Mãe áfrica” para esse espetáculo e com ele se apresentou em San Francisco, Chicago e Nova York, onde o show foi gravado ao vivo pela RCA. Quatro anos depois, projetou-se mais uma vez, com seu show de música brasileira, no Village Gate, onde permaneceu em cartaz por 2 meses e gravou o LPLife from the Gate, pela Vanguard.

Em 1975 realizou projetos com artistas renomados como Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Betty Midler, Paul Simon. Filmou um programa especial para a televisão francesa com o mímico Marcel Marceau e com o ator e cantor Harry Belafonte. Casou-se com a compositora Gloria Gadelha, com quem iniciou uma parceria musical frutífera, como em “Feira de mangaio”, considerado um clássico do forró e eternizado por Clara Nunes.

Em 1978 lançou o LP Sivuca, no qual interpretou o sambaião "O dia em que El Rey voltou à terra de Santa Cruz", parceria com Paulinho Tapajós; as upakangas – ritmo originário da África do Sul - "Mãe áfrica" (em parceria com Paulo Cesar Pinheiro) e “Barra vai quebrando”; e o arrasta-pé "Samburá de peixe miúdo", estas duas últimas em parceria com a mulher Glorinha Gadelha. No mesmo ano, obteve grande sucesso com a composição "João e maria", em parceria com Chico Buarque. 

A canção saiu no disco "Meus amigos são um barato", nas vozes de Nara Leão e Chico, com arranjo de Sivuca. Em 1980 lançou o disco Cabelo de milho, no qual interpretou, entre outras, a faixa-título, em parceria com Paulinho Tapajós; "Cantador latino", com Paulo Cesar Pinheiro; "No tempo dos quintais", que contou com a participação especial do cantor Fagner; além de "Se te pego na mentira", em parceria com Glorinha Gadelha.

Em 1984, o arranjador e produtor Rune Ofwerman apresentou Sivuca a Griec e Hans Cristian Andersen. Idealizou e produziu, pela gravadora Sonet, o projeto Rendez-vous in Rio, composto pelo disco Som brasil, por um segundo da cantora sueca Sylvia Vrethammar e por Chico’s bar, do brasileiro com o gaitista belga Toots Thielemans. Este projeto culminou com a gravação de um clipe, ao vivo, no Chico’s Bar, Rio de Janeiro, pela TV sueca. 

Nos anos seguintes foi convidado, pelo produtor Rune e Sylvia, para uma série de temporadas pela Escandinávia. No mesmo ano, juntou-se a Chiquinho do Acordeon no disco Sivuca e Chiquinho, que contou com a participação especial do maestro Radamés Gnattali. Gravou as composições "Pé de moleque", de Radamés; "O eterno jovem Bach", de Altamiro Carrilho; "Valsa verde", de Capiba; "Aquariana". do próprio Sivuca e "Rabo de fita", parceria de Sivuca e Chiquinho do Acordeon. Em 1985 colocou três discos nas prateleiras suecas: Som brasil, Rendez-vous in Rio e Chico''''s bar - Sivuca e Toots Thielemans, os três pela gravadora Sonet.

No final da década de 80, lançou com o gaitista Rildo Hora o LP Sanfona e realejo, que obteve boa receptividade por parte da crítica especializada. Após a morte da cantora Nara Leão, em 89, Sivuca e Paulinho Tapajós compuseram, em sua homenagem, "Canção que se imaginara", registrada primeiro no CD Enfim solo, lançado em 1997 e no qual interpreta composições de Pixinguinha, Luperce Miranda e Johann Sebastian Bach.

Em 1990, lançou o LP Um pé no asfalto, um pé na buraqueira, com a participação especial de Rildo Hora e de Glorinha Gadelha interpretando, entre outras, "Bom e bonito", de Osvaldinho do Acordeon; "Forró da gente", de Cecéu; "Guararema", em parceria com Glorinha Gadelha, e "Quem disse que o forró acabou?".

Em abril de 94, foi ao ar na TV Cultura, o programa Ensaio com Sivuca e o convidado Dominguinhos. No dia 30 de dezembro, participou do show em homenagem à posse do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao seu lado se apresentam Hermeto Pascoal, Osvaldinho, Borghetinho e Waldonys.

Continuou realizando apresentações no Brasil e no exterior, participando de festivais e recebendo a reverência internacional por seu trabalho instrumental. Em 2000 apresentou-se no Teatro Municipal do Rio de Janeiro junto com a Orquestra Petrobras Pró Música e o arranjador Wagner Tiso.

No carnaval de 99, a Unidos de Vila Isabel homenageou a cidade de João Pessoa, capital da Paraíba. Entre os destaques da agremiação estavam Elba Ramalho, Sivuca e Herbert Viana.

Em janeiro de 2001, em São Luís, na série de shows em homenagem ao compositor Antônio Vieira, principal fonte de inspiração de novos músicos maranhenses, subiu ao palco junto com Zeca Baleiro, Rita Ribeiro e Elza Soares. No ano seguinte, participou de shows em comemoração aos 25 anos de fundação da gravadora Kuarup, com apresentações no Canecão, no Rio de Janeiro, e no Teatro da UFF, em Niterói.

Em 2004, Sivuca gravou três discos: Cada um belisca um pouco (Biscoito Fino), com Dominguinhos e Oswaldinho; Sivuca & quinteto uirapuru (Kuarup) e Sivuca sinfônico, que permaneceu inédito até 2006, em que empunhou a sanfona e se uniu à Orquestra Sinfônica de Recife pra registrar composições populares com arranjos eruditos. Estão no repertório, “Rapsódia gonzaguiana” (uma seleção de clássicos de Luiz Gonzaga), “Concerto sinfônico para asa branca” (adaptação para sanfona e orquestra do hino de Gonzagão e Humberto Teixeira), “Feira de mangaio”, “Aquariana” (peça feita por ele para Glorinha, única inédita em disco), “Moto-perpétuo” (transcrição para sanfona da peça de Paganini), “Quando me lembro” (de Luperce Miranda), e “João e Maria”.

A saúde de Sivuca foi piorando e o câncer nas glândulas salivares que vinha tratando há quase 30 anos atingiu seu pulmão em novembro de 2005. Incansável, não parou, e assinou todos os arranjos para o disco "Terra esperança Sivuca sinfônico" foi lançado pela gravadora carioca Biscoito Fino. Mais um de seus grandes sonhos, unir música popular e erudita pela sua sanfona, estava realizado. Porém, a saúde do músico voltou a piorar e em 14 de dezembro de 2006 Sivuca morreu em decorrência de uma insuficiência respiratória causada por edema pulmonar. Compareceram em seu enterro em João Pessoa mais de 2 mil pessoas.

Postado em "Cultura Nordestina" por Daniel Almeida.
Veja também: Discografia Completa

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13 de dezembro de 2012

Hoje o rei do baião, "Luiz Gonzaga" completaria 100 anos


Há 100 anos nascia um dos compositores mais importantes da música popular brasileira, o músico pernambucano "Gonzagão", autor de canções como Asa Branca, Baião de Dois e Qui Nem Jiló. O centenário de Luiz Gonzaga também ganhou filme este ano. "Gonzaga - de Pai pra Filho", que chegou aos cinemas em outubro, mostra a biografia de Luiz Gonzaga e retrata, ao mesmo tempo, como era a relação entre ele e o filho Gonzaguinha. Gonzagão morreu em agosto de 1989, aos 76 anos.
Fonte: Jornal do Brasil/Cultura.

Para Lembrar Luiz Gonzaga. (Fonte: Revista Época)

Pouco tempo antes de Luiz Gonzaga (1912-1989) morrer, a cantora Anastácia, uma de suas discípulas, esteve com ele. Gonzagão, já doente, confidenciou-lhe um medo: o de ser esquecido. “Eu disse a ele que aquilo era besteira, que sempre iriam se lembrar dele”, diz a forrozeira pernambucana, como o mestre. “Para mim, ele deveria ser eleito o artista do século”, afirma Anastácia, que dedicou um capítulo de sua biografia "Eu sou Anastácia - história de uma rainha a Gonzaga."


A amiga de Gonzagão estava certa. Neste ano, quando faria um século de vida, o compositor de “Asa Branca” está sendo festejado com lançamentos de CDs, tributos e um filme com a sua história (leia mais abaixo). Isso confirma a importância de Luiz Gonzaga na música brasileira como um dos grandes divulgadores dos ritmos nordestinos (xote, xaxado, coco, toada, quadrilha), sobretudo nas décadas de 1940 e 1950, o auge de seu reinado.

Um dos maiores projetos do centenário de Gonzagão é uma caixa com três CDs que trazem 50 gravações inéditas das composições assinadas e cantadas pelo Mestre Lua. Produzido por Thiago Marques Luiz, 100 anos de Gonzagão (Lua Music) reúne artistas da antiga e da nova geração da música brasileira. Nomes como Elba Ramalho, Angela Ro Ro, Fafá de Belém, Claudette Soares, Cida Moreira, Zé Ramalho, Wanderléa, Maria Alcina, Chico César, Zeca Baleiro se juntam aos novatos Gaby Amarantos, Filipe Catto, Vanguart, Verônica Ferriani, Thais Gulin e Karina Buhr.

“A ideia foi mostrar que a música do Rei do Baião é universal e cabe em qualquer ritmo e gênero. É exatamente nisso que reside a genialidade e atemporalidade de sua obra”, diz Marques Luiz, que selecionou o repertório para os CDs, gravados em cinco meses.

Anastácia é uma das convidadas. Ela está na primeira faixa do CD 1 ao lado de Dominguinhos (outro discípulo do Rei), Amelinha, Geraldo Azevedo e Ednardo. Juntos, cantam o grande clássico “Asa branca”, e todos têm uma faixa individual na caixa.

A capa do Box 100 anos de Gonzagão é ilustrada por um desenho feito pelo artista gráfico Elifas Andreato. Publicado originalmente em 1976, a figura traz um sorridente Gonzagão em meio a mãos calejadas que lembram a paisagem do sertão nordestino.

                      A capa do CD que reúne 50 gravações inéditas de canções de Luiz Gonzaga

                     
A canção gravada por Amelinha, “Légua tirana”, especialmente, foi um pedido do próprio Gonzagão, também pouco antes de morrer. A cantora o encontrou em um avião a caminho de Recife. Na hora que a aeronave decolava, Gonzagão lhe fez o pedido: cantar a música. “Ele estava usando um terno branco, já de bengala”, diz Amelinha. “Ela também me pediu para que eu a cantasse em uma noite de gala, com um sanfoneiro no palco”, afirma. O pedido foi atendido algumas vezes ao longo dos anos, mas esta é a primeira vez que Amelinha registra a canção em um disco.

Entre os representantes da nova geração está Ylana Queiroga, que dá voz à faixa “Orélia”. “Para mim, é muito natural cantar Gonzagão. No Nordeste, ele é muito ouvido e muito cantado”, diz a cantora, que é de Recife. Outros novos pernambucanos como Paulo Neto (que está lançando seu primeiro CD, Dois perdidos numa noite suja) e Ayrton Montarroyos, de apenas 18 anos, também foram convidados para gravar na caixa tributo. Eles cantam, respectivamente, “Imbalança” e “Riacho do navio”.

Veja também: Discografia de Luiz Gonzaga ganha reedição completa em seu centenário (publicado pela Folha em 24/06/2012)

               
             O cantor, sanfoneiro e compositor pernambucano Luiz Gonzaga,.em registro de 1984
                                                                       Antônio Carlos Mafalda/Folhapress.



                                                        Outras homenagens:

Correios lançam selo em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga 

O Google hoje está homenageando o centenário de Luiz Gonzaga com um doodle:


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